Novas Tecnologias Midiáticas

Tecnologias e Linguagens Midiáticas | Prof. Dr. Francisco Rolfsen Belda

Entrevista com Nicholas Carr

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Leia a entrevista do escritor norte-amerciano Nicholas Carr, publicada na “Folha de S. Paulo” em 20/09/2010 (Caderno Saber). Em seguida, reflita sobre as tendências do hábito de leitura e aquisição de informação através da internet e das novas mídias digitais. 

A internet obriga a pensar de forma ligeira e utilitária

JORNALISTA QUESTIONA SE O GOOGLE AFETA A INTELIGÊNCIA HUMANA E RECOMENDA RESTRINGIR O USO DE COMPUTADORES NAS ESCOLAS E EM CASA

Por Marcelo Leite

Nicholas Carr cutucou a onça da internet com um argumento longo e bem-desenvolvido no livro “The Shallows -What the Internet is Doing to Our Brains” (que poderia ser traduzido como “No Raso -O que a Internet Está Fazendo com os Nossos Cérebros” e será lançado no Brasil pela Agir).

Em poucas palavras, a facilidade para achar coisas novas na rede e se distrair com elas estaria nos tornando burros. O livro já vendeu mais de 40 mil cópias nos Estados Unidos. Está sendo traduzido em 15 línguas.
Carr recusa a pecha de alarmista, mas sua preocupação com as “tecnologias de tela” é tanta que ele recomenda a restrição do acesso de alunos à internet nas escolas. Não descarta que a rede possa evoluir para a veiculação de ideias menos superficiais, mas tampouco vê indícios de que irá nessa direção. Leia abaixo trechos da entrevista telefônica dada por Carr da casa de parentes em Evergreen, Colorado, onde se refugiou depois de evacuado por força de incêndios florestais perto de sua casa nas montanhas Rochosas.
Folha – O livro deplora a internet como ameaça à mente formada pela invenção de Gutenberg, que nos deu o Renascimento e o Iluminismo. Mas Gutenberg também não destruiu a mente e a filosofia medievais? Ou seria mais preciso dizer que as invenções amplificam e continuam a cultura do passado? 
Nicholas Carr – Toda tecnologia de comunicação e escrita traz mudanças. Isso é verdadeiro mesmo para o período anterior a Gutenberg, com a invenção do alfabeto, pela maneira como alterou a memória humana e nos deu maior capacidade de intercambiar informação. A internet, assim como tecnologias anteriores, amplifica certos modos de pensar e certos aspectos da mente intelectual, mas também, ao longo do caminho, sacrifica outras coisas importantes.

Se a leitura e a reflexão profundas estão em risco, como explicar o sucesso de coisas como o Kindle e seu livro?
As coisas não mudam de imediato. O número ao menos dos que leem livros sérios vem caindo há um bom tempo, mas haverá pessoas lendo livros por muito tempo no futuro. Meu argumento é que essa prática está se mudando do centro da cultura para a periferia, e as pessoas começam a usar a tela como sua ferramenta principal de leitura, não a página impressa. Acho também que, à medida que mudamos para dispositivos como Kindle ou iPad para ler livros, mudamos nossa maneira de ler, perdemos algumas das qualidades de imersão da leitura.

O que pode ser feito em termos práticos e individuais para resistir a tal tendência?
Não escrevi o livro para ser do tipo de autoajuda. A mudança que estamos vendo faz parte de uma tendência de longo prazo, na qual a sociedade põe ênfase no pensamento para a solução rápida de problemas, tipos utilitários de pensamento que envolvem encontrar informação precisa rapidamente, distanciando-se de formas mais solitárias, contemplativas e concentradas.
Por outro lado, como indivíduos, nós temos escolha. Mesmo que a desconexão se torne mais e mais difícil, pois a expectativa de que permaneçamos conectados está embutida na nossa vida profissional e cada vez mais na visa social, a maneira de manter o modo mais contemplativo de pensamento é desconectar-se por um tempo substancial, reduzindo nossa dependência em relação às tecnologias de tela e exercendo nossa capacidade de prestar atenção profundamente em uma única coisa.

As escolas deveriam restringir o uso da internet pelos alunos, em lugar de se lançar de cabeça na tecnologia?
Sim. Nos EUA tem havido uma corrida para considerar que computadores na escola são sempre uma coisa boa, até mesmo uma confusão da qualidade do ensino com o tempo que os alunos passam conectados. É um erro.
Certamente os computadores e a internet têm um papel importante a desempenhar na educação, e as crianças precisam aprender competências computacionais, a usar a internet de maneira eficaz. Mas as escolas precisam perceber que essa é uma maneira de pensar diferente de ler um livro. É preciso dar tempo e ênfase, no ensino, para desenvolver a capacidade de prestar atenção em uma única coisa, em vez de mover sua atenção entre diversas coisas. Isso é essencial para certos tipos de pensamento crítico e conceitual.

O sr. consideraria a internet responsável pela epidemia de casos de transtorno de deficit de atenção e hiperatividade (TDAH)?
Não tenho certeza de que a ciência sobre isso seja definitiva, ainda. Há indicações de que as tecnologias que as crianças usam, de videogames a Facebook, possam contribuir para TDAH. É algo que precisa ser mais estudado. Para os pais preocupados com a capacidade de seus filhos de manter a atenção, poderia ser apropriado restringir as tecnologias.

A TV e o rock também já foram acusados no passado de ameaçar os intelectos jovens, mas não há carência de novos escritores e artistas.
Sempre que uma tecnologia nova e popular aparece, há pessoas que adotam uma visão exageradamente otimista, de uma utopia social, e pessoas que adotam uma visão exageradamente negativa, de que ela vai destruir a civilização. No livro tento não adotar uma visão unilateral da tecnologia, porque acho que ela tem muitas coisas boas, do acesso mais fácil à informação até novas ferramentas para autoexpressão.
Meu temor é que, na medida em que empurramos celulares, smartphones e computadores para as crianças em idades cada vez mais precoces, elas não venham a desenvolver as habilidades mentais mais contemplativas e atentas. Isso seria uma grande perda para a cultura, pois a expressão artística requer reflexão mais calma, tranquila, introspectiva.

É concebível que a internet possa mover-se numa direção que combine os poderes da informação visual com os do texto para promover pensamentos em profundidade?
Tudo é possível, mas cada tecnologia que usamos para fins intelectuais tem certos efeitos e reflete um conjunto particular de premissas sobre como devemos pensar. A internet, sendo um sistema multimídia baseado em mensagens e interrupções, tem uma ética intelectual que valoriza certos tipos de pensamento utilitários, voltados para a solução de problemas, que encoraja as multitarefas e a rápida transmissão ou recepção de migalhas de informação. A tecnologia pode mudar rapidamente, mas não vejo razão para pensar que vá [noutra direção].

Written by Francisco Rolfsen Belda

19/04/2011 às 19:01

Publicado em Sociedade

7 Respostas

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  1. Na minha opinião, este, é um assunto extremamente delicado, para se tomar qualquer partido.
    De fato, acredito estarmos diante de um grande dilema. Se, de um lado, vemos o quanto o poder do avanço das tecnologias midiáticas pode e já está há muito tempo, modificando nossa forma de viver, por outro, toda essa invasão tecnológica em nossas vidas, vem demonstrando claramente, a necessidade de refletirmos até que ponto levamos ou não vantagens com toda essa revolução tecnológica.
    A meu ver, devido a essa demanda devastadora, será um grande desafio para a sociedade como um todo, modificar, conscientemente falando sua rotina, no que tange ao uso desenfreado dos computadores e da internet.
    Uma outra questão que gostaria de compartilhar aqui, e que, também vem tomando dimensões cada vez mais expressivas, diz respeito ao EAD. Essa metodologia de ensino, sem nos darmos conta, foi chegando silenciosamente, aos poucos, e hoje, é assustador o número de faculdades que estão oferecendo essa modalidade. Assim como o advento do computador e da internet, trouxe seus benefícios, sim, tenho que admitir que o ensino a distância, acabou se transformando em mais uma ferramenta de inserção do cidadão analfabeto ou semi, no mundo letrado, bem como, ampliou a possibilidade de melhoria salarial na Licenciatura. Porém, ainda não consigo acreditar totalmente, que possamos ser mais bem sucedidos profissionalmente, obtendo um diploma por internet, quando, na presença constante do professor e da troca de conhecimento em sala de aula, poderíamos com certeza absorver muito mais.
    Não quero com isso, levantar a bandeira contra o EAD, mas, apenas expor minha opinião, como todos o fazem. E, nesse contexto, até o presente momento, vejo que, assim como, podemos considerar a não necessidade mais, do uso das mãos por exemplo, para realizarmos nossas escritas, logo, definitivamente então, não mais serão necessárias salas de aula, ou pior, escolas, faculdades, universidades, enfim. Bastará comprarmos, via net, nesses tantos mercados virtuais, a coleção completa do básico, do fundamental, do ensino médio e finalmente, escolhermos qual profissão nos agradaria mais,
    Hum!!! Aí sim, definitivamente estaríamos num dilema, não é mesmo? Qual coleção comprar? A de engenharia, medicina, letras, advocacia….não, aqui está, esta sim, seria a ideal! A de palhaço, claro.
    Em suma….estou com Carr! Evoluir sim, mas não a ponto de nos tornarmos escravos da própria evolução.

    Giovana

    30/04/2012 at 22:39

  2. A verdade é que não somos multitarefas como os sistemas operacionais que utilizamos em nossos equipamentos e não é novidade dizer que tudo em excesso faz mal.
    As novas tecnologias oferecem muitos recursos, equipamentos que são capazes de operar inúmeras funções ao mesmo tempo e internet que nos fornece qualquer informação. Precisamos compreender que é necessário nos organizarmos para lidar com tudo isso, é preciso filtrar informações e nos atentar em uma atividade por vez se desejamos que esta seja bem concluída. Para o adulto, deveria ser mais fácil dosar a quantidade de tecnologia utilizada, já a criança que nasceu meio a tudo isso é preciso orientá-la.
    A escola deve sim ensinar como fazer o uso dessas tecnologias e em um horário destinado a isso, esse ensino deve ser orientado para que a criança desenvolva conhecimento técnico para saber utilizar esses equipamentos e também uma orientação sobre o que acessar e manter a atenção nisso.
    Quanto aos livros deixarem de ser impressos, não é de todo mal, afinal “algumas” árvores seriam preservadas por conta disso. Não mudamos nossa qualidade de leitura se formos capazes de manter a mesma postura que temos quando utilizamos o livro impresso, devemos fechar todas as outras atividades e focar na leitura.

    Juliana Ap. Ninin

    04/05/2012 at 17:35

  3. Acredito que nada substitui um exemplar impresso. Temos acesso a vários dispositivos que nos permitem ler e fazer várias outras atividades em: tablets, computadores e smartphones, mas nada é tão prazeroso e proveitoso quanto a leitura de um exemplar impresso, que faz com que fiquemos focados e atentos enquanto realizamos tal atividade.
    A tecnologia talvez não seja a responsável por epidemias de TDAH, posto que crianças diagnosticadas não conseguem se concentrar em atividade nenhuma e não seria internet ou qualquer outro tipo de tecnologia disponível em casa que a faria ficar focada.
    A presença dos pais no controle das atividades dos filhos com relação ao tempo gasto com internet e video game é essencial, pois as crianças passam muito tempo diante de tais aparelhos eletrônicos deixando de lado atividades primordiais que contribuem para sua formação intelectual e criativa.

    Larissa

    04/05/2012 at 22:13

  4. Hoje as crianças lidam com novas tecnologias precocemente e isso vem gerando jovens cada vez mais complicados, introspectivos e fechados em um mundo de computador. Acho também que o costume de ler vem sendo utilizado cada vez menos pelas pessoas, não acredito que agora, pelo menos, jornais impressos assim como livros que vendem milhões de cópias vão se extinguir. Mas, acredito que com o passar dos anos será raro os adeptos à leitura.

    Levando em conta que hoje as pessoas que leem estão na fase adulta e as crianças desta geração cada vez mais ligadas a computadores, jogos e redes sociais, deduz que o futuro estará atrelado às tecnologias. Acredito que uma forma de controlar essa avalanche de “tecnologia precoce”, seria um tipo de incentivo dos governos a leitura, assim como formas de conscientizar os pais de que os filhos passam tempo demais em mundos virtuais. Não há como impedir o progresso tecnológico, mas, há como fazer com que ele venha na medida certa para cada criança.

    Carolina

    05/05/2012 at 9:24

  5. O ser humano não está acostumado a tanta tecnologia. Estamos “tateando” este campo. Por isso, todo cuidado é pouco, mais ainda relacionado à educação e como as novas gerações viverão com o conhecimento humano saltando aos olhos.
    Com certeza, as gerações que estão aprendendo a lidar com as tecnologias da informação e aquelas que já nasceram inseridas neste ambiente estão lendo menos. Ou melhor: estão cada vez mais conectadas em busca de informações e conceitos que respondam rapidamente às necessidades (mesmo que o resultado seja superficial).
    Creio que a discussão sobre a educação envolta de tanta tecnologia é apenas uma porcentagem de uma discussão maior: o comportamento. Estamos nos tornando pessoas mais vazias que estão em uma eterna procura. Isso resultará em pessoas ansiosas e, consequentemente, insatisfeitas, isoladas e dispersas.
    As mudanças que estão acontecendo por causa das novas tecnologias da informação assustam. Todos os dias novos conceitos surgem. Uma vida à parte está se formando.
    Para amenizar este cenário, a cautela é o melhor. Desde cedo precisamos educar nossas crianças e jovens a aprender a dividir o tempo. Assim como a sociedade teve que aprender a viver com a televisão e a tecnologia anterior a ela, precisaremos criar mecanismos que intercalem a vida real com a virtual.

  6. Toda grande mudança gera polêmica, prós e contras. No entanto, sem transgressão não há evolução, e se chegou o momento de saltarmos do impresso para o digital, de aprender uma profissão pela internet ou mesmo jogar com uma tela, ao invés de uma bola, que seja. A humanidade se molda às necessidades.
    Creio ser um esforço nulo lutar contra a imersão tecnológica, seja para adultos ou crianças. É um processo cada vez mais presente e, muito em breve (se já não for), indispensável.
    Apesar de prudente, observo uma visão conservadora em Carr, claramente descrente da evolução do intelecto humano através da internet. E contesto. É andar na contramão do progresso, colocando-se numa aparente posição alertista, mas cômoda, em minha opinião. Por que não entender o processo e juntar-se a ele? Por que não criar novas formas de uso das tecnologias a favor da construção do intelecto, da ética, da alma do indivíduo? Óbvio que o uso desenfreado de qualquer ferramenta é inapropriado, porém, isso não é regra nova. Esperamos pais com bom senso e instituições preparadas para orientar a criança quanto ao uso dessas mídias. É causa e consequência: a mãe já não está o dia todo em casa, a criança passa mais tempo na escola, que por fim só tem a ganhar com o uso efetivo desse recurso. Se eles (as crianças) praticamente nascem conectados, que aprendam estando conectados. Acredito que incutir isso na mente de um garoto que lida com tecnologia desde muito cedo não é difícil. Já é o ambiente dele, ou seja, é ali que ele usará para se relacionar, seja com as pessoas, com os jogos, ou com o aprendizado. Por outro lado, separar na mente da criança que o computador é apenas lugar de procrastinação e lazer, claro que ela sempre verá a tela com essa finalidade.
    Quanto aos adultos, vejo sim um risco de dependência excessiva. Somos de uma geração que vivenciamos a implementação de tudo isso, portanto, estamos aprendendo a “ser” conectados e não mais “estar” conectados. O que não quer dizer que devemos estar disponíveis full time. Quantos de nós deixamos de atender ligações quando estamos em uma reunião, por exemplo? Ou nos negamos a conversar sobre trabalho em uma mesa de bar? Penso que, falta incorporar a internet como parte de nós, parte essa que habilitamos ou não em momentos oportunos. Não é um “não ~entrei~ na internet hoje”, muito menos morrer de gastrite quando o 3G falha, mas entender que é nossa extensão, uma extensão do próprio corpo humano que, algumas vezes, também precisa ficar off.

    fernandamarchioretto

    13/05/2012 at 5:54

  7. Eu acredito que não foi a tecnologia que distanciou as pessoas da leitura, as pessoas se distanciaram a tempos, o imediatismo da procura no google apenas para responder superficialmente algumas questões, antes existia com enciclopédias. em contrapartida do que Carr diz, muitas pessoas passaram aler periódicos, jornais, revistas e livros após esses terem sua versão digital, existem os dois lados e isso não pode ser descartado.
    Concordo quando Carr diz: “Meu temor é que, na medida em que empurramos celulares, smartphones e computadores para as crianças em idades cada vez mais precoces, elas não venham a desenvolver as habilidades mentais mais contemplativas e atentas. Isso seria uma grande perda para a cultura, pois a expressão artística requer reflexão mais calma, tranquila, introspectiva”, ao invés de proibir a criança a essas novas ferramentas, devemos orientá-las a como tirar um maior proveito delas. O conteúdo hoje é fácil, em uma pesquisa rápida na internet você consegue respostas para possíveis dúvidas, porém a fixação dele e o entendimento é que devem ser trabalhado tanto nas escolas como dentro de casa pelos país.
    Para finalizar digo que não importa qual a plataforma que as pessoas estão utilizando para leitura, o que realmente importa é o que elas estão lendo.

    Alex Vissoto

    15/05/2012 at 21:06


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